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22.10.20

VIVA OS NOIVOS


Fui baptizada em bebé, estudei os primeiros anos numa escola católica, e fiz a primeira comunhão no devido tempo, mas o meu percurso pela igreja termina ali. Não sou católica e, mesmo acreditando que há mais facilidade na vida quando depositamos alguma esperança numa força superior a nós, prefiro manter o gosto apenas pela beleza extraordinária que as igrejas têm em imponência e detalhe.

Independentemente de crenças, gosto do Papa Francisco, como gostei do Papa João Paulo II. Gosto deles não pelo prefixo mas pela humanização e este papa é pessoa, é gente, é humano. Quando vi o filme “The Two Popes” acho que até do Papa Bento XVI fiquei a gostar. A modernidade de pensamento advém muito do contraste com a antiguidade, e os dois juntos em debate podem trazer grandiosidade.

O Papa Francisco veio agora defender a regulação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Não era necessária uma opinião da igreja para que as mesmas uniões fossem feitas, é certo. E provavelmente a uma casal do mesmo sexo, que não acredite em Deus, isto faz pouca diferença. Haverá contudo pessoas que podiam viver em contradição e que sendo católicas fazem as pazes consigo mesmas por sentirem alguma validação no seu amor.

De entre as crenças que posso ter, a crença no amor é a que prevalece. Chamem-me poético-pastoril mas valido apenas a frase “mais amor por favor” que andou espalhada em graffiti por ai. Sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a favor da adoção por parte desses mesmos casais. Apregoa-se nesse sentido alguma falta de funcionalidade mas tenho para mim que não existem famílias totalmente funcionais. Se o forem parcialmente já é uma benção. Assim entre o que tem um casal do sexo oposto e o que tem um casal do mesmo sexo, o bom resultado tem por base o conceito de amor. Conceito esse que varias mais que a quantidade de pessoas que aguardaram por um milagre. Seja como for, satisfaz-me esta aceitação e por isso:

Viva os noivos!

Foto via Unsplash.

23.9.19

DENTRO


Disseram-me hoje que raramente me lamento ou queixo. Também já me disseram que ultrapasso as intempéries com muita rapidez.
Acredito que haja quem duvide da dimensão dos meus sentimentos por demonstrar menos quando sofro.
É verdade que o meu muro das lamentações está pouco escrito. Rabisco por lá alguma coisa quando a dor é profunda e a preciso arrancar à bruta. Também é certo que há em mim uma dificuldade grande em chorar as mágoas em colos que não sinto meus. É mais fácil verem-me deixar cair as lágrimas a meio de um filme qualquer do que a chorar a dureza da vida.
Tenho para mim que a importância das coisas somos nós que a damos e que o queixume dá força ao que queremos deixar para trás. Concentrarmo-nos na lamúria é dar-lhe destaque e o foco que tenho está em ser feliz.
Sinto tudo, não se iludam. Se prestarem atenção veem a minha tristeza diluída nos kilos que fui perdendo. Sempre fui corpo e ele fala tudo o que não verbalizo. Cada um canaliza as emoções da maneira que sabe, mesmo que saiba pouco do que tem dentro.
A forma de expressão não é só boca.
Acho que já vos disse que sou naturalmente feliz e isso advém do espaço que dou à tristeza. Dou-lhe os mínimos para que não se instale mas ainda assim consiga ser lição. Aprende-se tanto com o que corre mal.
Deixem-me repetir. Sinto tudo e sou cheia na emoção. Alimento-me do que não se faz amargo porque a dieta certa é aquela que reduz em calorias os maus momentos, para repor em quantidade todos os bons que soubermos cozinhar.
Bom apetite!

3.9.19

EU SOU ASSIM


"O homem que diz “sou” não é, porque quem é mesmo é “não sou”. "

Lembro-me sempre de Vinicius de Morais e o seu Canto de Ossanha quando alguém remata uma conversa com o “eu sou assim”. Com este tipo de argumento não há nada a contrapor. É enfiar a viola no saco e seguir cantando.
Confesso que nunca entendi muito bem que tipo de validação poderá haver nesta expressão e questiono-me algumas vezes se quem a dita gosta do uso do eu para apropriação e fala para si próprio em convicção ou se a agarra em desespero de causa quando o outro argumento que tem na calha já só é o aumento da voz.
Pela quantidade de gente que apregoa o “eu sou assim” pondero tratar-se de uma reza e nunca fui muito religiosa.
Estará realmente alguém disposto a só ser assim?
Seja o assim o que for. É que assim ou assado, fica tudo fechado ali. Fico claustrofóbica só de me imaginar trancada em três palavrinhas apenas. Então e depois? É ficar assim?
Percebo que, quando a crítica é lixada e a carapuça nos serve, o caminho mais fácil seja encerrar a discussão. Atirar para a frente o "eu sou assim" é passar a batata quente para o outro lado.
Sabem que somos humanos não sabem? E que isso nos torna imperfeitos, certo?
Temos falhas e temos qualidades e acima de tudo temos a capacidade de mudar, de evoluir, de adaptar-nos!
O crescimento individual, mesmo que nasça de algo conjunto, é bom. Não é uma anulação, é um desenvolvimento. Achar que qualquer alteração na pessoa que somos é uma diminuição em vez de um acréscimo é mau, estupido até.
A crítica não tem de ser destrutiva, não serve para rebaixar. É antes essencial e enaltece. Admitir as nossas falhas é coragem e liberta. Dá espaço para ser, mais! Quem é que quer dar-se por terminado?
Eu não sou assim, e deve ser rara a vez em que opto pela negativa.

23.8.19

REMEMBER WHY YOU STARTED


Em conversa com um amigo que prezo muito referi uma frase que me alimenta “Remember why you started” e às vezes basta isto para que todo um discurso se aproprie do meu pensamento. Pode parecer estranho mas faço mais textos mentais dos que os que realmente escrevo.
O propósito dessa frase, adivinha-se, vinha de toda uma conversa sobre relacionamentos, muito embora acredite, agora que penso nisso, que se adeque a tudo o que nos é adjacente.
O que interpreto daquela frase é que nos perdemos demasiadas vezes do propósito inicial, o que em termos amorosos soa até demasiado racional. Mas seja a que parte do corpo pertença a ligação, há sempre algum propósito, objectivo ou visão. Investir em nada seria uma espécie de mergulho no vacuo.
Retomando à inconstância, talvez seja a isto a que se predem os objectivos que terminam em lado nenhum ou talvez tenhamos trazido para nós a mesma velocidade que a internet lá de casa e se salte de objectivo como de tab em browser. Agora imaginem se a página demorar mais de 5 segundos a abrir.
Foco no objectivo que sei que divago demasiado entre palavras, bem mais que na vida, a que me cabe definir, pelo menos.
O que será que se passa connosco? Que seres insaciáveis nos tornámos que a busca do prazer imediato se sobrepôs ao prolongamento. Eu sei que o sexo tântrico é coisa para dar trabalho e damos primazia a um bom emprego mas será que uma rapidinha serve o propósito?
Talvez seja tão fácil angariar novos investidores que com uns a seguir aos outros nem nos apercebamos da perda. Tapamos buracos tal e qual mestre de obras sem nunca pensar que uma parede com excesso de remendos é pouco sólida.
Prefiro abandonar a efemeridade e manter de instantâneo somente a polaroid. Abrandar o carrossel de emoções para me entregar a algo verdadeiramente significativo. Afinal a soma só acrescenta se chegarmos a resultado.

29.5.16

ESTIGMA

Agarrei na palavra que me deste enquanto dançava. Já devia ter escrito sobre ela. De certa forma, mesmo não devendo nada, devo-te isso.
Aquela noite entre músicas quero guardá-la. Faltou-nos o copo de vinho na mão. Não te disse na altura porque também sei medir as palavras e o entender que lhes podes dar. Gosto de noites assim. Soubesses tu da importância que têm as notas musicais. Os crescendos. Os silêncios. O cantarolar semi tímido.
Estigma. Palavra difícil essa para contornar com metáforas. Ou talvez não. Sei que preferes quando não maquio as frases e abandono os rodeios. Uso quase sempre artefactos que explicativos servem ambos os sentidos. Há maior defesa ai.
Ainda questiono o porquê dessa palavra. Atribuem-lhe tantas hipóteses de significação que posso correr o risco de não a interpretar correctamente. Onde será que a encaixas?
Das cicatrizes que me fazem falo-te tantas vezes. Entre os exemplo que não gostas que dê estão as marcas do passado. Por muito que se sarem as feridas, as profundas ficam. É por isso que muitas vezes junto a farinha toda no mesmo saco e me resguardo nas frases feitas.
Não sei se te confunde o espaço que se faz entre o que digo e o que faço. Falta-me alguma coerência. Na dúvida rege-te pelo que digo sempre que te disser que não. No imediato dita o impulso e já fiz. Rege-te também pelo que faço sempre que o fizer repetido no tempo. No acto repetido não há contradição.
Podia falar do estigma que é teu mas não quero que entendas o passado como o impedimento do presente. Esse é agora e é meu. Está no desenrolar dos actos a partir do segundo em que te reconheci. Não há julgamento de histórias contadas, de relatos trabalhados, de supostos inquestionáveis. Entre as verdades que me ditas e as mentiras não há discussão. Acredito em ti até quando sei o que me escondes, por opção. Podia ler no estigma patologia mas retiro-lhe o peso para te deixar respirar.

28.5.16

DISSEMELHANTES

Talvez tenhas razão. Dou por mim a calcular as palavras que me disseste. Nem sei se as interpretei correctamente. Vai sempre uma longa distância entre o que se diz e o que se ouve.
Primeiro defendo-me sempre. Quando tentam fazer de nosso espelho, refutamos sempre o reflexo. Argumento bem até a razão que sei que não tenho. Hei de saber mais de mim.
Não queria baralhar ninguém com o meu discurso semelhante. Essa parte já percebi. Não é teasing, nem deixa de ser. É só discurso. Repara que na maioria das vezes deixo à interpretação os textos que faço. Conheço quem reclame para si cada texto que escrevo.
Cabe num texto tanto quanto sei da vida que imagino. Imagina agora o quanto poderá caber na imaginação.
Às vezes, dou-me o beneficio da dúvida e questiono a minha própria confusão. Perco-me tantas vezes nas minhas conclusões. As respostas vêm com a vida. Aquela que transforma o sinal de proibido num sentido obrigatório, nos cinco minutos que se seguiram à aceitação da inversão de marcha.
Bastou um minuto entre a conversa e a azafama que se vive nessa casa e todos os sinais mudaram.

6.4.16

ERA...

Deixa-te de merdas que a vida vive-se! Regras e imposições, limites e contradições.
Deves ser um teste à minha coerência formal e só me lembro de aprender o desenho à mão livre, de traço solto.
Tentas-me só com os lábios. O calor húmido, o toque suave, o lábio inferior. Não o mordisques assim. Ou tenta-me só mais esta vez.
Não é só corpo que esses lábios falam. Há verdades a mais aí. Dizes sempre tudo com esse sorriso e isso confunde. São esses lábios, ou talvez não.
Fico entre os factos sem argumentos. Que nível de sinceridade é esse que me deixa compreender tudo sem entender nada.
Deixa-me seguir o caminho que tracei. E deixas. Esse teu querer também baralha. Dei-te os sinais todos errados e esses lábios. Dei-me os sinais todos errados e esses lábios.
Tenta-me mais uma vez ou nenhuma.
Era só um beijo.

Era mas não foi.

4.4.16

AMIZADE

A distância que vai da mão à pedra devia ser maior. Dava mais tempo para refletir antes de a atirar. Se cada telha que partimos nos lembrasse da telha que nos podiam partir, talvez partíssemos todos menos telhas. Somos todos humanos, não somos?
E se eventualmente não houver pecado a apontar, lembrem-se que há vida de sobra para errar. Não se felicitem ainda! Fazer a coisa certa nem devia ter direito a medalha. A não ser que a façam para a receber. Caso contrário, a medalha, seria apenas a coisa certa. A propósito, o que fará do certo, certo?
Desculpem. Não quero melindrar ninguém. Não quero atingir. Não quero persuadir. Não quero esclarecer. Que se abandonem as armas de arremesso, os bodes expiatórios, e as diretrizes partidárias.
Não sei falar dos outros. Sei tão pouco deles. Cada vivência que relato é minha, são as únicas que conheço. Não gosto de juízos de valor. Cada julgamento que faço é sobre mim. Não conheço a verdade global de qualquer outra história que não a minha. E os valores. Que sabemos nós de valores? Provavelmente tanto quanto sabemos do certo.
Diz a sabedoria popular que “cada um vê mal ou bem, perante os olhos que tem”. Sei, quando olho para mim, que fiz sempre o melhor que soube perante as situações em que me colocaram e em que me coloquei. Esta é a premissa da qual parto, sempre que olho para os outros.
Sobre a amizade o que dizer e é difícil falar de amor. Não, não me enganei nas palavras. Falo a mesmo linguagem nas duas temáticas. Se entenderem que as devemos distinguir. Lá está, valores, conceitos, verdades, juízos.
A amizade, a minha, não se mede no estar ao lado do outro quando o compreendo, mede-se no estar ao lado, até quando não o compreendo.
De resto, perante tamanho tribunal, defendo a palavra quando é directa e acrescenta. Quando revela mágoa mas não fere. Dentro da minha bitola cabes também. Se doí, chora e lava. Se rasga, agarra e costura. Se parte, junta e cola. Só não faças das tuas feridas o corpo de alguém.

3.4.16

DAMA DE COPAS

Há alturas em que a decisão certa custa tanto. No imediato, apetece. Mas é uma questão de carácter  e o dia seguinte chega sempre.
Tenho a certeza que mesmo que aí estivesse seriam só palavras. Já te conheço e não o farias. Se o fizesses traias 3 confianças. A minha, a dela e a tua. A última matava-te. Não és assim. És homem de carácter.
Somos todos tão diferentes que não há regras de vida. Isto nem é um jogo. A única estratégia necessária é aquela em que a consciência não te pesa e se fores fiel a ti mesmo nem lanças os dados. Põe as cartas todas na mesa. Não se guardam sentimentos na manga nem se faz bluff.
Quem ganha à batota, perde mais. Aposta alto e vai a jogo. Joga limpo e abre o jogo. Se não ganhares a culpa é das cartas que te deram e não do jogador que és.
Volta a juntar tudo e baralha.
A dama vem.

29.3.16

CURIOSO

Gosto de ti. Acredita. Mas hoje não. Hoje não posso.
Essa tua mania de sabotar as emoções incomoda-me. Sabes que te dou atenção. Ouço quase sempre o que me dizes e até arrisco dizer que te ouço em demasia. Podíamos testar o teu silêncio mais vezes. Ia saber-me tão bem conseguir calar-te. Tenho de descobrir os teus lábios, dizem que um beijo pode quebrar uma frase, e às vezes preferia não ouvir-lhe o fim.
Até podes ter razão.
Curioso.
Sempre que falo és tu que ditas.
Deixa-me um bocadinho à mercê do que sinto. Vai dar uma volta, desliga-te, adormece. Essa tua necessidade de mapeares os caminhos irrita-me. Sabes lá tu se não é na rua sem sentido que todo o meu eu se encontra. Só te indiquei a meta. Se quiseres espera lá por mim. Assim se cortar à esquerda e fizer batota, livras-te das culpas. Vá, deixa-me ir. Sim, eu sei. Tropeço sempre na mesma pedra.
E então?
Curioso.
Todos os passos que dou és tu que comandas.
Faz o que quiseres mas deixa-me entregue à vontade. Se continuares a insistir abro o tinto. Já sabes que ele te ganha ao segundo copo. Não gosto particularmente de te deixar dormente, preferia que aprendesses a relaxar de outra forma. Sim, eu sei, mas não posso escrever isso aqui. Vês como me censuras.
Lembras-te disso agora?
Curioso.
Todos os pecados que cometo és tu que acendes.
Mas hoje não. Hoje não posso.

8.3.16

INTERPUNCTIONE

As palavras só não te faltam se te dito o silêncio
Não era isso que devias ter dito
Fala-me só quando fores mudo
Ou eu suficientemente surda

Presta atenção às virgulas que não uso
São no inverso as tuas reticências
Tenho na pontuação o reflexo da flor que me deste
O anúncio de uma morte prematura

Concentra-te menos no choro
Sem dares de beber ao riso
Disfarçar não é batota é só estúpido

23.2.16

DESCOBRE-NOS

Escreve isso tudo num lençol e cobre-me.
Deitei-me destapada para te receber as palavras e a janela aberta é o código de entrada.
Reconheces?
Vale-me a distância, que a demora na toma do verbo torna a composição pouco presente e a acção, mesmo que perfeita, faz-te chegar no dia seguinte, quando já me levantei.
Tenho-te tão abstrato que me fascina só olhar-te os contornos. Reconhecer no desenho de cada letra, pedaço a pedaço, a matéria que te envolve. Vou retirando, a cada camada de tinta, o que faz de ti próprio e não mais comum.
São tantas as derivações que me sinto irregular até dentro daquela imaginação.
Fizeste-me cansar do colectivo, primitivo, para nos querer num plural, ainda mais primário. O que temos de imperativo está no fogo do que não se diz quando só conjugamos sons. Não sei qual das vozes é mais activa mas que sejamos abundantes na acção. Em tempo certo e quando o modo deixar de ser imperfeito.  
Até lá, fazemos esta brincadeira em gerúndio, só para prolongar o prazer de ser indefinido.

22.2.16

FORA DE MIM

Não me deixes aqui sozinho que perco a engrenagem da vida e sento-me à sombra de mim mesmo. Ando a ruminar-me há tanto tempo que já só sou pele e osso. Comeram-me os sonhos para me deixar preso ao que sinto quando me deito em pesadelos. Não me quero sozinho nesta casa abandonada em que me transformei. Houvessem menos espelhos nas minhas próprias paredes e o confronto com o que sou, quando já não sou nada, seria menos carregado da pena que sinto espelhada.
Não me deixes aqui sozinho que me perco no raciocínio. Não estou a falar de perder o fio à meada. Percebe. Perco-me na razão. Na lógica. No racionalizar de tudo o que é mesmo quando não sou. Se te tiras de mim, adoeço.  Não sinto. E o que se pode ser, quando a emoção está moribunda e a única acção é mental?
Não me deixes aqui sozinho. Levas-me contigo a liberdade e não me quero preso a mim mesmo. Quero-me inteiro na sensação. Num passeio pela curva dessa anca quando se deita de lado na cama. Tocar-te a pele para te reconhecer o toque e me saciar na fome tendo-te o sabor. Olhar-te os lábios húmidos que trincas de prazer e o contorcer do corpo quente quando me tem.
Quero-me-te menos imaginada e de uma vez. Num escape de mim mesmo e não mais sozinho.

25.1.16

QUENTE E FRIO

Deitei-me para sonhar em vão que, entre as horas que ganhei (prefiro sempre achar o ganho que o perdido) a travar o pensamento e as horas a que o despertador tocou, sobrou pouco tempo para a quantidade de sonhos que tenho. Fui assaltada pela imagem acelerada de um acidente, um embate frontal entre um carro e um monte de terra. Não estava a sonhar mas assumo aquela imagem como a catarse que deveria ter feito a dormir.
Sábado tive um acidente, metaforicamente falando, um embate frontal com a realidade. Ela esteve sempre ali, como aquele monte de terra, e um embate frontal com um monte que sempre ali andou, só pode ter sido propositado. É que às vezes queremos mesmo chocar de frente com a verdade só para darmos a certeza a nós mesmos que o caminho não se faria por ali. Era um monte de terra, nem era caminho. Andava disfarçado e continuo a não perceber porquê. Nunca fui boa a entender o porquê de uma mentira mas também não sou feita de terra, sou mais verdade.
Fiquei ali a dissertar comigo e na mesma medida do 8 para o 80, levei-me até ao meu habitat. Os hábitos têm sem dúvida um habitat natural e no meu complexo ecossistema o estado viral é feliz. Há mais seres vivos com a mesma forma de vida e és um deles, menos acelerado talvez e mais contido nas emoções, mas igualmente verdadeiro. Lembrei-me da pergunta que me fizeste, porquê ir ter contigo com aquele discurso baralhado e sem filtro, que tenho consciência que me faltou totalmente ali. Não havia sentido algum em falar-te, nem tenho uma resposta plausível que possa ser mais real que saber que haveria compreensão e abrigo. No pouco tempo em que nos demos com regularidade, sempre falámos a mesma linguagem, e encontrei em ti, alguém capaz de falar quase tanto como eu. Não censuras e sabe-me bem, não julgas nem aconselhas, e na leveza das tuas palavras a realidade ecoa diferente e encontro internamente tranquilidade. Se os encontros não se dão por acaso, entraste na minha vida com toda a razão.

10.1.16

AGORA

Era disto que falava.
Das borboletas no estômago que não implicam a toma de um "brufen" no dia seguinte. Decifro-te mesmo que mudes de código de barras a cada duas horas. Decifro-te é a primeira metáfora dessa frase e sem propósito nenhum porque nos dizemos sem filtro desde que haja sentido. Código de barras seria a segunda se nos ouvissem as palavras quando me assaltas os lábios a meio de uma frase. Duas horas para assumirmos o número par. Essas certezas todas contagiam-me.
Desconfiei que existisse alguém desse lado tão como eu. Que sabe de antemão que dizer tudo não é sinónimo de menos mistério. Esse, faz-se na intensidade com que se vive e na reciprocidade das palavras interrompidas pela acção urgente de se viver no corpo o que se tem cá dentro. Não medimos nada, o já é feito de "agoras" e o único futuro é o que se constrói presente na falta de tempo, o que não perdemos, juntos.
Também gosto desta falta de espaço que é recusa às saudades, um t0 minúsculo que te faz tocar-me a cada volta. E sempre que me tocas abandonas o intervalo. Não há meio que se faça entre nós que não seja uma questão de pele. Para que haveríamos de querer reservas se no baixar da guarda está tudo o que somos para sermos inteiros.
Somos um vamos cheio de promessas que nem sequer fizemos. Gostamos das palavras que pronunciamos mas onde nunca deixamos a dever está mais no verbo que no substantivo, está na acção.
Entramos no carro, naquele em que aceleras. Desta vez, vou contigo, sem calma. A única coisa que me assusta está no "pára-arranca" mas soubeste contornar o trânsito e tens a coragem certa para o "prego a fundo".

22.12.15

VICIAS-ME

Se me continuas a dar atenção assim vicio-me. Não gosto de vícios, já me bastam os cigarros. Se me vício em ti fica tudo estragado. Depois dou por mim em ressaca à mínima falta de atenção.
Não estou a duvidar da tua capacidade de permanência, mas sei de cor a minha intensidade e quero deixar-te de sobreaviso. Raramente se consegue manter à tona quem não nasceu com o mesmo fôlego de vida.
Eu sei que esse olhar me persegue. Ainda não percebi como me podes desenhar tão bem. Entre as palavras que pronúncias e os actos que tomas, vejo uma miúda mexida. Doida na forma desmedida como consome o momento e se bate com o relógio entre o prolongar do minuto e a passagem no imediato para o dia seguinte.
Podia ao menos fazer um hiato menor mas não, se é para ser tem de ser grande. Não se querem diminutivos, nem subtrações, ou valores mínimos. Se é para dar, dá-se em escala. Se guardas o melhor para o fim, o mais provável é já ter perdido o apetite. Vês? É isso! Mais olhos que barriga.

PARADIGMA

- Tens a certeza?
Que raio de pergunta para começar o discurso. Foi aqui que ficámos ontem, pelo menos na minha cabeça. Até porque fiquei de teorizar sobre o tema e bater-me a favor do paradigma. Bater-me a meu favor será difícil só porque pode parecer que te quero persuadir quando só quero ganhar o prémio. Serás tu ou serei eu servidos de bandeja?
Dizem que construimos padrões relacionais. E dou-me 100% a essa verdade. Por mais que tente contornar o sabor daquilo que já tive, o paladar encontra-te na primeira contra-curva. Sai daí que não quero derrapar. O travão de mão faz-me girar e nunca fui boa em terminar o pião virada para o lado certo. Sou mais errática que essa tua certeza.
De que te serve seguires por ai? É certo que precisas ser cuidado mas esse caminho é tão perigoso como aquele em que não te cuidam. Só por um motivo. Se te faltou a candura, faltar-te-á a falta dela. Qualquer caminho que te dê apenas um sentido, ficará a dever o sentido inverso. Não quero que andes para a frente e para trás, até porque moras longe. Também não te quero a meio caminho, que a indecisão é o pior castigo. Dizia-te para fazeres o que sentes, só porque sei que me sentes mais a mim. Se te disser ao ouvido então, sabemos quem se deita na bandeja.
Não te digo mais que isso. Não te contentes, nem te insurjas. O caminho desenha-se sozinho e foi exactamente por isso que apareci no tempo certo. Assim que te bateu a certeza, servem-te uma incerteza deliciosa.
Façam-se as honras.

8.11.15

COLINHO

Se voltas com esse ar “bossy” prometo que obedeço. Ignoro o primeiro “anda cá” só para te ver chegar e indelicadamente te sentir encostar-me à mesa para darmos inicio à ceia. Acho que vamos comer com as mãos. Nem temos a mesa posta. A loiça que partimos é metáfora da vontade que me tens e no chão só fica o que não sobrou. É que não deixas sobrar nada.
Não me deixes arrefecer. O único sinal de arrepio que quero é o que me dás quando te ouço a respiração e te sinto quente na fome. A gula é pecado mas ofereço-te a carne se te souberes demorar no sabor. Troca-me de lugar que os olhos também comem.
Se continuas a olhar para mim assim vou abusar no picante e o som do fogo que acendes é alto. Não baixes o volume já. Manda-me pôr os braços à volta do teu pescoço e dá-me colinho. Só não me leves já para a cama, prometes?

31.3.15

NEW GAME

Todos os dias me lembro de te esquecer mas, acontece sempre qualquer coisa pelo meio que me distrai e, continuas aqui. Esquecer-te dá mais trabalho do que o trabalho que tive a adivinhar-te. Sim, adivinhei-te e enganei-me na resposta da interrogação que és.
Podias ter avisado. Não é bom deixar as pessoas caídas no erro. E tinhas-me poupado o trabalho de te esquecer. Porque se te tivesse conhecido, antes de te fantasiar, não precisava esquecer-te. Dou por mim a lembrar mais aquilo que imaginei que fosses do que a sentir saudades daquilo que és. Agora estou encurralada. Como é que se esquece alguém que é coisa da nossa cabeça? Sendo da nossa cabeça, está instalada.
Isto recorda-me uma das nossas questões iniciais: como é que se conhece, pela primeira vez, alguém que já se conhece? Devíamos estar os dois muito enganados nessa altura. O único alguém que conhecíamos era o que nos faz a nós mesmos, o outro era desconhecido. Saber, em antecipação, que vamos conhecer um desconhecido, que já tem imagem, dá uma boa margem de manobra à imaginação. Sou tão boa a imaginar que me excedi.
Dizia Picasso: “Everything you can imagine is real.”. É por isso que estou encurradala. A minha imaginação elevou os padrões a um grau surreal e embora este “jogo” me dê constantemente novas vidas, não estou a conseguir carregar nos botões certos para passar de nível. Também posso ter o comando estragado ou será que isto se resolve com pilhas novas? Admito que não sei jogar. Podes-me passar de nível? Ou jogamos a outra coisa?

21.3.15

POESIA

Hoje é dia mundial da poesia. Não sei estas coisas de cor nem as tenho assinaladas na agenda mas gosto de ouvir rádio enquanto conduzo e aqueles senhores sabem destes dias e informam-nos. Hoje em dia, há dias para tudo e alguns dos dias são felizes na distinção. O dia da poesia, não sendo o dia do poeta, que esse tem dia próprio, é um deles. Ainda mais para nós, um país de grandes poetas. Não serão todos os poetas grandes? Interrogo-me no entretanto.

O maior dos meus poetas é aquele de que me lembro sempre que falo em poesia, ou em prosa, ou em escrita. Aquele que não era poeta. Era antes poetas, porque era vários. Fernando Pessoa. Falo dele a tanta gente, e falo tanto, exaustivamente e entusiasticamente, que até é cansativo. Para os outros. Eu não me canso. Não seria possível cansar-me de alguém que é tantos ao mesmo tempo. Não há rotina literária ali. Se me cansar de guardar rebanhos com o mestre Alberto Caeiro, posso cruzar-me numa rua da Baixa com Álvaro de Campos, ou descer até ao Terreiro do Paço para um café, no Martinho da Arcada, com Pessoa, ortónimo.

Não tenho tantos livros "pessoanos" quanto Pessoa tem de heterónimos mas posso dizer-vos que tenho muitos e nem todos lidos, ainda. Ler Pessoa requer tempo e espaço emocional e inteligível. Para se conseguir descortinar-lhe as metáforas e sentir-lhe os afectos é preciso concentração. Há excepção do mestre, simples no olhar, todos os outros são complexos no diagrama de emoções. É que "pensar é estar doente dos olhos" e "faz mal às emoções".

Então, porque hoje é dia da poesia, deixo-vos dois excertos de dois poemas e um poema completo. O primeiro de Alberto Caeiro, o segundo de Álvaro de Campos, e o terceiro (o que me arrebata desde que Pessoa se cruzou comigo) de Fernando Pessoa.


"(...)
E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
E' só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silencio pela herva fóra.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo d'um outeiro,
(...)"

Alberto Caeiro
(Poemas Completos de Alberto Caeiro - Editorial Presença)


"(...)
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealista, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
(...)"

Álvaro de Campos
(Poemas de Álvaro de Campos - Imprensa Nacional - Casa da Moeda)


"MORDE-ME COM O QUERER-ME que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti-própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te...

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me... E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção...

Possue-me-te, seja eu em ti spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha...
Meu amor será o sair de mim do teu ócio
E eu nunca sereu teu, ó apenas-minha?"

Fernando Pessoa
(Poesia 1902-1917 - Assírio & Alvim)