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24.3.15

O SONHO - MARIA RITA




Como é que se começa a escrever sobre aquilo que nos deixa sem palavras?
Descrever uma peça não é de todo difícil. Difícil é traçar uma emoção, narrar um sentimento, explicar um encantamento. É aqui que me encontro, entre a realidade e o sonho, o palpável e o inatingível. Exactamente onde deveria estar para poder contar, da melhor forma possível, uma história, que não tem "h" e começa com "e", como todas as estórias que pertencem ao mundo da fantasia. Uma estória esculpida e modelada.

Falar da obra de Maria Rita é dançar no universo do onírico, onde tudo é significado e significante. Na delicadeza dos materiais podemos encontrar metáfora da fragilidade da vida e da efemeridade do sonho. Nos detalhes, escondidos por todo o lado, há referências a imaginários clássicos. No modelar do barro, e do papel, há expressões de si própria aos molhos. Nada é dado ao acaso, nem mesmo o branco com que se vestem as lolitas.

Fascinam-me estas lolitas. Fico entregue à contemplação das suas expressões, mais ingénuas que infantis, que parecem indagar o mundo por onde, hipoteticamente, se perderam. Estarão a sonhar ou também elas se renderam à contemplação do que nos faz ser?

Se as lolitas se perderam acredito que as possamos encontrar na Wonderland de Luis Carroll. É que nesta obra também podemos cair na toca do White Rabbit, cruzar-nos com o Mad Hatter ou travar uma batalha com a Queen of Hearts.

Então, se até a Alice se achou num sonho, resta-me perguntar, da mesmo forma que José Saramago,
"Que seria de nós se não sonhássemos?" .








*Todas as imagens retiradas daqui.

20.3.15

"FELIZ É QUEM DIZ" E A PRIMAVERA

Enfim: "Feliz é quem vê chegar a Primavera"! A "Feliz é quem diz", e não poderia dizer e ilustrar melhor a sua própria expressão, que será, com certeza, a expressão de muita gente.

Ainda estávamos a meio do Inverno e todos os meus suspiros primaveris se derretiam quando o sol lançava, tímido, alguns raios. O Inverno sabe bem aos Domingos quando o barulho da chuva lá fora se mistura com a melodia que se ouve dentro de casa, e nos aninhamos no sofá. Há todo um ritual invernoso no deitar no sofá. Roubam-se as almofadas da cama e desdobram-se as mantas. Faz-se um chá com sabor a gengibre e hortelã e um chocolate quente para a princesa pequenita. A leitura é infantil e o filme da Disney. Nos domingos em que a Flor não está comigo mudam-se alguns contornos mas o raio de acção mantém-se.

Como só temos um Domingo por semana, tenho tendência para passar o Inverno a suspirar pela chegada da Primavera. Então e, voltando ao inicio: "Feliz é quem vê chegar a Primavera", a "Feliz é quem diz"!

A Susana, a autora deste projecto, é feliz e desenha a sua felicidade em ilustração. Onde a encontra? Nas coisas simples da vida, aquelas que muitas vezes são rotina e que acontecem sem se fazerem notar. Ela vê-as e sente-as e gosta delas. Feliz de nós que com ela passamos a conseguir nota-las quando nos aparecem assim ilustradas. Há vida nestas ilustrações e felicidade aos molhos, de flores, de cores, de padrões. Haverá felicidade maior do que andar em nuvens coloridas? Ou a sentir o vento na cara quando andamos de vespa? Ou enquanto passeamos pelas ruas de máquina fotográfica na mão? E quando sentimos borboletas no estômago? Ah... quando sentimos borboletas no estômago! E mais um suspiro primaveril!

Vou regar as minhas flores. É que "Feliz é quem enche a casa de flores"!


*Todas as imagens retiradas daqui.

18.3.15

ANNA WESTERLUND CERAMICS




Cá em casa não há serviço de porcelana, nem faqueiro de prata, e de cristal só a ideia romântica do sapatinho. Sempre que ponho a mesa retiro do louceiro um festival de formas, não sigo um protocolo  e a única regra de etiqueta é acompanhar o manjar dos deuses com a poção mágica certa. Cada prato, copo ou talher é diferente, no feitio e na cor, e todos os detalhes são milimetricamente sentidos. Nestas coisas devemos pouco à matemática e quase tudo à magia.
É aqui, no mundo do fantástico, que encontro espaço para a ceramista Anna Westerlund.
Para onde mais nos poderia levar uma das suas peças? Só num mundo encantado esquecemos o tempo para nos perdermos no detalhe que faz única cada uma das suas peças.




Anna Westerlund cria um universo paralelo de uma beleza pura, onde a simplicidade da forma se decora de cores suaves e se borda de missangas. Um bule não é apenas um bule, é parte de uma história que podemos contar. Uma taça não se limita à sua função mas divide-se na categoria para receber ou dar. Mesmo sem conteúdo (chá, fruta, açúcar e etc) qualquer uma das suas peças é capaz de nos oferecer, como alimento, a capacidade de sonhar. E é essa capacidade, própria, que nos faz notar o prazer da criação, como se em cada escolha, a cada traço desenhado, houvesse parte de si diluída no movimento de moldar.






O mundo original de Anna Westerlund vai além função e a colecção "one off pieces" é prova disso. Aqui mora o sentido da expressão do seu trabalho e da sua capacidade imaginativa. Da inocência de ser criança e de acreditar na simplicidade da vida.
Se ainda não tenho em casa nenhuma das suas peças é porque quero dar espaço à chegada de uma destas "bonecas" e torná-la a protagonista no cenário que tenho como sala.



*Todas as imagens retiradas daqui.